Transições de vida

Há mudanças que escolhemos e outras que simplesmente acontecem.

Um filho que nasce, uma mudança de país, o fim de um relacionamento, uma mudança profissional… Mesmo quando desejamos a transformação, ela nem sempre vem acompanhada da segurança que imaginávamos ou desejávamos.

E ai que vem a parte desafiadora, toda mudança implica deixar alguma coisa para trás.
O espaço entre o que termina e o que ainda não começou, que mora o verdadeiro desafio.

Porque mudar não significa apenas chegar a um lugar novo, muitas vezes, significa também se despedir de uma versão de nós mesmos.

Quando alguém muda de país, por exemplo, não leva consigo apenas malas e documentos, leva uma história, uma língua, referências, relações, lugares conhecidos e uma determinada forma de se reconhecer no mundo.
Quando nasce um filho, não nasce apenas uma criança, nasce também uma mãe, um pai, uma nova configuração familiar. E, junto com ela, algumas das possibilidades de vida que existiam antes daquela chegada deixam de estar disponíveis da mesma maneira.

É por isso que mesmo mudanças desejadas podem ser acompanhadas por sentimentos difíceis.

Podemos sentir alegria e medo ao mesmo tempo.
Alívio e tristeza.
Esperança e insegurança.
Às vezes, até mesmo uma certa sensação de estranhamento diante de nós mesmos.

O que acontece quando aquilo que conhecíamos deixa de existir?

Existe algo de muito humano na nossa relação com o conhecido. Mesmo quando uma situação já não nos faz bem, ela oferece referências, pois sabemos como funcionar ali, o que esperar, quem somos naquele lugar.

Uma separação pode ser desejada e, ainda assim, provocar saudade, uma mudança de trabalho pode representar uma conquista e, ao mesmo tempo, trazer insegurança, a maternidade pode ser profundamente desejada e também produzir a sensação de que uma parte da vida anterior ficou para trás.

Isso acontece porque as mudanças não acontecem apenas do lado de fora.

Elas mexem com a maneira como nos percebemos.

Durante uma transição, é comum surgir uma pergunta que nem sempre conseguimos formular claramente: quem sou eu agora?

E essa pergunta pode aparecer de muitas formas, seja na dificuldade de criar novos vínculos, na sensação de não pertencer, na vontade de voltar ao que era antes, na cobrança para que a adaptação aconteça rapidamente. E é por isso que algumas transições podem ser sentidas como muito cansativas, pois estamos tentando construir alguma coisa nova enquanto ainda estamos elaborando aquilo que ficou para trás.

Entre o que terminou e o que ainda não começou

Existe um período das mudanças em que ainda não nos sentimos pertencentes ao novo, mas também já não conseguimos voltar completamente ao que éramos antes.

É um lugar de passagem.

Na migração, isso pode aparecer de maneira muito evidente, a pessoa chega a um novo país, mas sua vida anterior continua presente, aprender-se novos códigos, constrói-se novas relações, reorganiza a rotina e, ao mesmo tempo, lida com a falta daquilo que deixou.

Mas não precisamos atravessar fronteiras para experimentar esse tipo de transição.

A adolescência é uma passagem.
A chegada à vida adulta também.
A maternidade, uma separação, uma mudança profissional, o envelhecimento, a saída dos filhos de casa… São todos momentos em que antigas referências deixam de dar conta da experiência atual.

E talvez seja justamente por isso que algumas mudanças nos desorganizam tanto.

Não porque exista algo errado conosco, mas porque ainda estamos encontrando uma maneira de nos reconhecer nessa nova realidade.

Não precisamos ter pressa para nos tornar quem seremos

Existe uma expectativa bastante presente hoje de que devemos transformar qualquer dificuldade em aprendizado rapidamente.

Mudou? Aproveite a oportunidade.

Terminou? Recomece.

Foi difícil? Tire uma lição.

Mas nem toda experiência precisa imediatamente se transformar em crescimento.

Algumas precisam primeiro ser vividas.

Existe um tempo para sentir falta, para se arrepender, para ter dúvidas, para não saber exatamente o que fazer. Existe um tempo em que a pessoa simplesmente precisa reconhecer que alguma coisa mudou e que ela ainda não sabe muito bem quem será depois dessa mudança.

E lembre-se, esse tempo não é vazio.
É justamente nele que algo pode ser elaborado.

Elaborar não significa apagar o passado ou deixar de sentir, significa, aos poucos, encontrar uma nova maneira de se relacionar com aquilo que aconteceu.

O que pode ajudar durante uma transição?

Talvez a primeira coisa seja abandonar a ideia de que precisamos atravessar toda mudança sozinhos e sem sofrimento.

Falar sobre o que está acontecendo pode ajudar a organizar aquilo que ainda aparece de maneira confusa. Às vezes, só conseguimos compreender o que uma mudança significou quando encontramos um espaço para colocar em palavras sentimentos que pareciam contraditórios.

Também pode ser importante reconhecer que adaptação não acontece no mesmo ritmo para todas as pessoas.

Não existe um prazo universal para deixar de sentir saudade, construir novos vínculos, recuperar a confiança ou se sentir pertencente a um lugar.

E há uma diferença importante entre se adaptar e simplesmente se acostumar.

Adaptar-se não significa deixar de ser quem se era. Significa encontrar uma maneira possível de existir diante das novas circunstâncias, levando consigo a própria história, mas permitindo que ela ganhe novos sentidos.

Toda travessia deixa marcas

Talvez a transformação não esteja em sair de uma mudança completamente diferente de quem éramos antes, talvez esteja em poder reconhecer que algumas coisas mudaram e que nós também mudamos com elas.

Há partes de nós que permanecem e outras que precisam encontrar novas formas de existir.

Por isso, diante de uma transição, talvez a pergunta não precise ser apenas: “Como faço para superar isso?”
Podemos perguntar também:
O que essa mudança está me pedindo para deixar?
O que ainda preciso elaborar?
E o que começa a nascer em mim a partir dessa experiência?

Nem sempre teremos respostas imediatas, e tudo bem, algumas respostas só aparecem quando conseguimos, primeiro, dar tempo e espaço para viver a travessia.

Por Mere Keler
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